Cresci equívoca numa tessitura doiro
- invisível armadilha
de perecíveis deslumbramentos.
Como prender nas asas das mãos
os voos de todas as aves,
se das raízes dos plátanos
a ponta dos dedos
é espinho ferido
na última gota de amor.
Bernardete Costa
Parti em vela içada ao vento, o sol em tempo agreste
esmaecia no celeste azul, sol e lua no mesmo cais,
tarde demais a doer nostalgia.
À berma da vida te abracei por não saber mais amar-te.
Terminou na penumbra dos meus olhos
a cegueira maior de ti ao penar o teu amor.
O suor nas axilas, todas as pedras no peito,
e eu a perder-te pelas brumas, o teu rosto cego e duro
na cegueira do meu rosto.
Todas as tardes findaram nas mãos,
não mais névoas no Tejo ou asas no Mondego, não mais
perguntas por onde te perdias em desassossego.
Pelas vielas penas a vida numa pena de ver-te.
E as brumas nos meus olhos morrem de frio, não mais
a luz de estio na cegueira de ter-te.
Findou o vento que te trazia tal flor na lapela,
e tu pelas ruelas, rameira da escuridão colhendo seivas,
cinzas de amor e de pão…
tu pelo chão, tu perdida de mim,
ave nocturna a vender o amor que me pertencia na madrugada,
jasmim a florescer em açucena desfolhada.
Hoje, o outrora é passado que apago.
Não te posso amar, no coração restam farrapos de bandeiras
que o vento enfuna,
nesse imenso Tejo que te tragou,
nesse Mondego sereno,
desistente de ti como eu.
Bernardete Costa
sabe-se bela e derramada em esplendor de sol;
na raiz dos defeitos, rosa roseira não perturba lapela
em seus efeitos, pois não é mulher
com desgosto de amor .
mas rosa amarela é cega da luz que a tortura;
flor refém da cor, entretecida na chuva,
qual mulher em queixume de musa
com travo de delírio dos lábios bebida.
a crer-se Flora no matiz e mel das pétalas
por loucos pretendida, em silêncio, excessiva.
rosa a esmaecer na ardência que a retém, bela rosa
na cintilação dos meus versos,
lugar de exílio em poema delida,
como mulher em fio de astúcia
tomada de segredos.
Bernardete Costa